segunda-feira, 13 de junho de 2011
Cícero aprendeu naquela noite que para dormir bem e receber um abraço de boa noite é preciso ser sereno, resguardando-se mesmo com as coisas que mais te afetam. Ele não cogita que ficar mudo, calado, é saída para isso. Mas omitir opiniões sinceras talvez preservem sua imagem diante do outro. Uma imagem já não bem compreendida pode ser motivo para distorções do que se fala. Às vezes - disse ele - em um relacionamento, a coisa mais importante é não opinar sobre o que não precisam ser dito. Balance a cabeça, concorde, assopre, suspire, bufe, sorria, beba água, acenda um cigarro, tome uma cerveja, coma um biscoito, chame a vizinha de louca, fale de seus medos de infância, fale de suas perspectivas profissionais, conte segredos bobos, beije, abrace, trepe, coma, fode muito, sorria, fale com muita felicidade "eu te amo", e repita sempre, com leveza, "eu te amo", chame pra dançar, façam compras juntos, descreva nuvens, coma maçãs vermelhas e suculentas, comprem um pote de sorvete e brinque na cama em dias de calor, graceje, goze a vida! Entre tantos atributos, Cícero optou por falar suas opiniões mais estúpidas sobre acontecimentos que perpassam sua vida. Ele, então, destoou-se de seus objetivos. Ah! Cícero - reclamei. Falar o que mais para ele, a não ser as mesmas opiniões que me dissera: Balance a cabeça, concorde, assopre, suspire, bufe, sorria, beba água, acenda um cigarro, tome uma cerveja, coma um biscoito, chame a vizinha de louca, fale de seus medos de infância, fale de suas perspectivas profissionais, conte segredos bobos, beije, abrace, trepe, coma, fode muito, sorria, fale com muita felicidade "eu te amo", e repita sempre, com leveza, "eu te amo", chame pra dançar, façam compras juntos, descreva nuvens, coma maçãs vermelhas e suculentas, comprem um pote de sorvete e brinque na cama em dias de calor, graceje, goze a vida! Por fim, repita tudo... Balance a cabeça... goze a vida! Tempos depois, Cícero resolveu mudar de vida quando percebeu ser necessário deixar de lado aquilo que tinha como valor moral e moralmente aceito entre os entes: a identidade. Inventou que todas as pessoas deveria não ter cor definida. Ser sempre mutável e adaptável para viver a dois e entre os amigos. Ele entendeu que seu cotidiano tornou-se um jogo xadrez, como se a vida social fosse característica de um tabuleiro artístico, em que as pessoas são as peças das composições enxadrísticas. Cada qual jogada como na teoria do Xadrez que abrange aberturas, meio-jogo e finais (que seria o 'gozar a vida'). Para isso, ele precisou tomar uma decisão única. Tomou a mão de sua mulher e enunciou a nova filosofia de vida: "vamos, juntos, gozar a vida!". Com um sorriso esquisito, olhou nos olhos dela e concluiu: "vamos mudar de lugar". Ela, surpresa, preferiu não opinar. Foi graças a ela que ele deixou de lado as opiniões que não precisam ser ditas. Ela então concordou e foi arrumar as malas. Prontamente estavam no aeroporto e embarcaram às 18h00 daquela intempestiva quarta-feira. Liguei para eles e me despedi por telefone, pois se fosse ao aeroporto estaria pasmado demais para comentar algo. Disse ele: "meu caro o avião saí daqui há pouco e estou tomando um cappuccino decente!". No primeiro instante não entendi o porque desta informação, mas logo me apercebi que ele estava mais que decidido. Ele estava despreocupado. E assim foi. Subiu às nuvens e por email enviou uma foto do seu desembarque. Cecília já entusiasmada com o novo lugar enviou-me 17 fotos e em cada qual mostrava duas pessoas sorridentes que dormiriam abraçados numa noite agradável de sono e amor sincero na nova cité. Não imaginei que um conselho fosse recebido com tamanha força que passei a repetir: Balance a cabeça... goze a vida! Tudo que Cícero fez foi agir o mais rapidamente sem olhar para trás, afim de evitar curtocircuitos. Foi o que disse-me ao finalizar nossa última conversa por celular antes do embarque do casal: "Atitudes! Porque as palavras eu já tô até decorando". Tomei isso pra mim e acabei por levar a sério, como contra-resposta a minha estagnação aqui nesta cidade. Sempre que recebia um cartão postal deles me comovia saber que eu não estava lá ou em qualquer outro lugar.
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Outro dia também pensava nessa minha estagnação nessa cidade. Não que já seja longa (4 a 5 anos), mas precisamos de mudanças.
ResponderExcluirÉ Raíssa, eu tenho a impressão que preciso logo me mudar. Tenho vontade de mudar de cidade e região. Novo estilo de vida!!
ResponderExcluirAh, este texto foi um surto. Depois que li achei engraçado. Às vezes 'viajo' nas palavras.
=*