Em Fogo Pálido, Nabokov formalizou com maestria a sentença contingente do ser: "A vida do homem como comentário de um abstruso poema inacabado". Essa expressão serve de resumo para a afirmação de que toda a vida humana é a elaboração de uma sofisticada fantasia, e serve de lembrete de que nenhuma elaboração desse tipo se completa antes que algo venha intemrrompê-la. Não pode se completar, porque não há nada a completar - há apenas uma rede de relações a ser tecida outra vez, uma rede que o tempo alonga a cada dia.
Se, porém, nos contentarmos em pensar em qualquer vida humana como o re-tecer sempre incompleto, mas às vezes heróico, dessa rede. Veremos a necessidade consciente de o homem forte (e sua poesia mundana) demonstrar que não é uma cópia ou uma réplica. É apenas uma forma especial de uma necessidade inconsciente que todo ser humano tem: a necessidade de se haver com a marca cega que o acaso lhe deu, de construir um eu para si, redescrevendo essa marca em termos que, mesmo marginalmente, sejam seus.
[....] a não ser no momento oportuno."
G. Garcia Márquez.
Diante da possibilidade dessa contingência: Sou apenas autor quando preciso, pessoa quando necessito, eu mesmo quando não quero.

O texto é uma adaptação do livro "Contingência, Ironia e Solidariedade" de Richard Rorty.
ResponderExcluirPor fim, despeço-me aqui com um abstruso conto inacabado.
=)
muito bonita a poesia da frase final:
ResponderExcluir"Sou apenas autor quando preciso, pessoa quando necessito, eu mesmo quando não quero."
parabéns pela habilidade das palavras.